18/01/2012
Um mundo em uma tarde
No sábado, dia 14 de janeiro de 2012, cheguei ao município de Carangola em Minas Gerais com dois objetivos simples, encontrar colegas que não via há algum tempo e, no dia seguinte, prestar o concurso público para a prefeitura. Não consegui rever meus colegas, muitos estavam gripados ou fora da cidade. Dentre os presentes, ouvi que o clima era de chuva nos dias antes de minha chegada. Nessas horas a gente pensa cada coisa boba. Perdi-me em um questionamento fantasioso, será que, de alguma forma, eu levava luz e calor para a vida das pessoas? Realmente, um pensamento muito bobo, repreendi-me mentalmente. O dia logo deu lugar à noite e me recolhi ao hotel.
O hotel era um espetáculo a parte, a estrutura parecia ter sido construída com outra finalidade, o quarto era pequeno, o ventilador não funcionava, creio eu que apenas para estar em sintonia com o chuveiro elétrico. A tubulação conectada ao chuveiro realmente não era própria para tal finalidade. Certamente fora adaptada para suprir as necessidades do ambiente.
Durante a madrugada, meu celular não me deixava dormir. Recebia constantemente relatos de entrega de torpedos que havia enviado durante a tarde. Logo amanheceu e mesmo sem o cartão de confirmação de inscrição consegui localizar o local da prova, com ajuda de uma amiga que havia me falado que o colégio ficava em um local alto. Com essa informação que nos parece tão banal, o taxista experiente levou-me até a escola. A prova iniciou-se pouco depois. Perdi meu RG no ônibus ou em outro lugar qualquer. Para quem me conhece isso não é nenhuma novidade, não que eu tenha costume de perder documentos, mas que geralmente as coisas improváveis acontecem comigo. Depois de assinar termos de responsabilidade pude fazer a prova.
Ah, a prova. Se soubesse antes como ela estaria elaborada, talvez nem tivesse saído do hotel. Muitas questões estavam incoerentes, em outras, simplesmente não havia o questionamento, fora um fragmento de lei escrito errado no enunciado. Arrasei-me. Não conseguiria passar, afinal atuo na área da educação e não da parapsicologia. Como adivinhar o que aquelas frases sem nenhuma articulação queriam?
Terminei a prova. Levei muito mais tempo do que o habitual. Do lado de fora murmúrios me animavam. Todos reclamavam da falta de clareza das questões e dos erros de digitação. Revigorado, busquei por um restaurante. Decidi por almoçar no segundo que encontrei visto que estava mais vazio e também muito mais arejado. A comida era simples, o cansaço foi se fazendo presente. Terminei o almoço e adiantei meu regresso.
Consegui comprar a passagem para um ônibus que partiria em 30 minutos. Cheguei a pensar que o veiculo partiria com poucos passageiros. Ledo engano. Assim que abriram as portas entreguei a passagem ao cobrador e busquei o último acento. Estava totalmente vazio. Nos instantes antes da partida tornou-se lotado. Chamou-me atenção o último passageiro, ou melhor, passageiros, que ingressaram. Um homem de aparentemente 20 anos, branco, alto, magro, com um olhar muito abatido. Em seu colo carregava um garoto que não poderia ter mais do que dois anos completos. Em comparação com seu carregador, o menino estava muito bem cuidado, arrumado e animado.
Todos os outros lugares estavam ocupados, ambos os jovens ocuparam o acento ao meu lado. A criança sorria-me de um modo contagiante, enquanto o jovem parecia esforçar-se em ficar consciente apenas para garantir a proteção do menino.
Logo eu havia caído no sono. Estava esgotado. Já na estrada o guardião da criança me acorda. O trocador pedia a passagem para conferir. Após entregar a passagem para o trocador observei que a criança dormia calmamente, ignorando totalmente a estrada esburacada. Sorri para seu protetor, agradeci por ter me acordado, apontei para o infante e perguntei como ele conseguia aquela proeza de dormir em um ônibus lotado com um sol forte enquanto passávamos por buracos. Como resposta obtive que ele gostava de veículos, ficando realmente mais calmo dentro deles, principalmente em movimento. Em pouco tempo o guardião falava-me de sua própria vida.
Ele era pai solteiro. Afirmara que a gravidez foi um erro, mas ao ver meus olhos dirigindo-se em direção ao pequenino que dormia, ficou com vergonha e disse que a melhor coisa que teve com o relacionamento que gerou o menino fora o menino mesmo. Sabem aquelas verdades sobre um mundo que nós sabemos que existe, mas muitas vezes não vimos? A história das pessoas que dependem exclusivamente dos serviços públicos de saúde e educação?
Quando o menino fica doente, seu pai acorda por volta de 3 horas da manhã e fica na fila do posto de saúde. Quando a médica chega para atender aos pacientes ele liga para a própria mãe, pedindo que esta leve o menino ao posto de saúde. Com a chegada da mãe com o filho, o pai solteiro volta para casa na esperança de conseguir dormir um pouco, pois sua jornada de trabalho de 12 horas diárias começa ao meio dia.
A mãe do pequenino ficou meses sem dar notícias durante a gravides, viajando, mudando de cidade. Com o nascimento, ela deixou o filho aos cuidados do pai e sumiu novamente.
O pai jovem ficou desempregado por meses. Fazia tudo que podia para cuidar do filho. Deixava de comprar roupas e suprir as próprias necessidades apenas para garantir que nada faltasse para seu filho. Contou-me de seus sonhos, aspirações, planos para o futuro. Cada palavra doía em meu coração. Não fui criado por meu pai, não tive uma figura paterna determinada e dedicada. Sofria em saber o que é um pai de verdade e mais ainda, sofria em saber que o jovem que na verdade era pouco mais velho do que eu fazia tudo pelo filho com resignação. Não se importava em passar por nenhuma provação, contanto que conseguisse suprir as necessidades do filho. Dormia pouco. Abandonará muito de sua vida social. Educava o filho. Mesmo terminando tardiamente o ensino fundamental, tinha noções de como educar. Naquele momento, uma enorme tristeza ocupou meu peito. Como permitimos que esse tipo de situação aconteça? Como alguém consegue fazer tanto sacrifício por alguém, sem esperar nada em troca? O que mais me doía na verdade eram duas coisas: nunca meus progenitores demostraram a décima parte desse comprometimento comigo e, não tenho certeza se serei forte o bastante para fazer o mesmo por meus filhos.
Ao relatar esse fato para uma amiga escritora, ela pediu-me para que eu descrevesse a experiência em linhas gerais, para que postasse em seu blog. Eu não sou um escritor, cometo graves erros de ortografia, de gramática e por ai vai. Mas se eu puder ser metade do pai que aquele rapaz é, minha vida será plena.
Fabricio de Oliveira Lage Mansur
fabriciodeo.l.mansur@hotmail.com
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5 comentários on "Um mundo em uma tarde"
A amiga sou eu! uhuuulll
Um dia comum pode ser realmente surpreendente se prestarmos atenção ao nosso redor
resumindo sua viagem foi uma merda u_u mas pelo menos aprendeu que ainda existem boas pessoas
(Sahid Mansur)
Tem que ser humilde, pra enxergar essas coisas. A vida nos ensina muita coisa no dia a dia...é sendo humilde, passando pela dor, ou conseguindo enxergar a dor dos outros e entendê-la, isso que nos faz humanos.
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